terça-feira, 27 de abril de 2010

Viagens, aeroportos, aviões, pés inchados e engrandecimento da alma

Viajar é muito bom! Mas o processo, a partir do momento da decisão da viagem até o o doce instante em que você consegue chegar no local de destino não é oara qualquer um. Há boatos de que até Dalai Lama, com toda a sua calma e paz interior, já teve um acesso de André Gonçalves no avião, e quase espancou uma aeromoça (mentira, nunca ouvi tais boatos, mas se ouvisse não duvidaria). Olhem só o trabalho que tivemos para conseguir nossa merecida viagem:
Preparativos
Transporte: Conseguir uma passagem conveniente é muito difícil. É incrível como diferenças de datas e companhias podem variar em mais de 100% as tarifas. Pior que isso é fazer a reserva do bilhete. Geralmente não é você quem faz, mas mesmo assim é um tédio passar horas sentada em frente a uma operadora de viagens, com o telefoninho pendurado, comunicando-se através de códigos incompreensíveis: "Alfa CWB Lambda GRU 0067438 Mascote Cavalo HTW Gibraltar Frango Omega 897". Credo, o que significam essas coisas? Você fica imaginando se estão te xingando de uma forma que não possa entender: "Passageira gorda ignorante quer poltrona da saída de emergência para esticar as porras das pernas no trecho La Plata - São Paulo – Rio de Janeiro". Mas aí a moça desliga o botão do telefoninho e gentilmente comunica que a reserva caiu e que ela vai ter que começar tudo de novo.
Mala (ou mochila): Como transformar um armário de quatro portas, mais uma estante de cosméticos e remédios, mais uma gaveta de utilitários em uma singela malinha de dois compartimentos? É um sacrifício. Tem que pensar em tudo: na combinação de cores, nos tecidos que não amassam, nas roupas mais leves e confortáveis, na jaqueta de chuva, nas calcinhas e meias laváveis no chuveiro, nos sapatos que não ocupam espaço, nos acessórios que vão com tudo, no guarda-chuva automático, nos creminhos disso e daquilo, nos cotonetes, bandeides e afins, no secador bivolt dobrável, no ferrinho, no carregador de celular, na câmera, no carregador de bateria, no cabo para passar as fotos pro computador, no discman, nos fones, nos cds (ou no ipod e acessórios para os mais sintonizados), nos conversores de tomadas e de voltagem, nas cruzadinhas, sudokus e livros de leitura fácil para os momentos de tédio, nos guias de viagem, nos remedinhos de dia-a-dia. Aí tem que passar horas fazendo mágica e força pra fazer tudo caber naquele micro espaço. Finalmente você perde a calma, senta em cima da mala e destrói os dedos para fechar o zíper. Enquanto pensa em como o homem inventou aparatos que criaram necessidades inúteis que complicaram sua própria vida, uma lágrima escorrega pelo seu rosto.
Documentação: passaporte em dia, vistos, passagens, seguro de viagem, cartão de crédito 1, cartão de credito 2, caderninhos de emergência dos cartões de crédito, vouchers de hotéis, travelers check, dólares, miniagenda, declaração de equipamentos eletrônicos, cartão de visitas da agência de viagens (para reclamar inutilmente com as mocinhas quando o vôo atrasa), cartão de fidelidade e milhas, chip internacional do celular, papelzinho com as senhas dos cartões (sempre invertendo números para ninguém descobrir depois, inclusive você). Tudo isso logisticamente dividido em carteira, bolsos e infames barrigueiras (que viram sempre uma meleca suada depois de horas de vôo).
No aeroporto
Check In: tudo está preparado. Você veste a roupa cebolão, com 16 camadas, que se adapta a qualquer clima. Por dentro de sua calça está a preciosíssima barrigueira. Sua mala está devidamente trancada e identificada, com chaveiros coloridos, fitas de todos os Santos Brasileiros e Não Brasileiros, etiquetas com suas informações e fotos da família. Na mala de mão, todo o essencial para minimizar a desgraça se sua mala for extraviada, além dos clássicos kits de caipirinha que você leva caso tenha que presentear alguém. A fila do "check in" é quilométrica e você espera pacientemente.
Algumas crianças atrás de você empurram o carrinho contra seus calcanhares, que logo sangram. Ainda bem que sua "nécessaire" com bandeides está fácil. Chega a sua vez. Você entrega todos os seus documentos e destronca sua coluna para colocar a mala na balança. Pede por uma poltrona de corredor, mas a moça avisa que no momento só tem disponíveis os assentos 167 E e F, aqueles bem no meio da fila do meio. Você pensa um pouco e escolhe o F. Pega seu cartão de embarque, seus documentos e sua mala de mão e dirige-se para o portão de embarque.
Embarque: depois de se despedir de familiares e amigos e passar pelo controle de entrada, você vai até o raio-x. Coloca seus pertences na esteira, passa pelo sensor e logo tudo apita. Oito homens com metralhadoras e cachorros vêm em sua direção. Tentando manter a calma, você explica que pode ser o metal do seu cinto. Desconfiados, eles pedem que tire cinto (tomando sempre o cuidado para não cair as calças), sapatos, meias, blusa, coloque-os na esteira e passe novamente. Dessa vez nada acontece. Os rostos dos homens e seus cachorros tornam-se dóceis e eles lhe desejam uma boa viagem. Você segue até o portão 58, aquele marcado no bilhete. Chegando lá, fica sabendo que houve uma mudança e agora o embarque será feito pelo portão 2. Volta tudo e suas panturrilhas começam a gemer. Vai ao banheiro, esforça-se para passar pela porta do cubículo com as bolsas e quando abaixa as calças e se agacha (serviço de utilidade: jamais sente em banheiros públicos) ouve a voz computadorizada anunciando o embarque imediato do seu vôo. Você trava o processo, veste-se novamente, sai se batendo do cubículo e corre para o portão. Entrega seu bilhete e segue a fila de passageiros, que termina na entrada de um ônibus lotado para levá-los até o avião. A porta fecha bem na sua vez e pedem que você aguarde alguns minutos até que o veículo retorne. Meia hora depois você está subindo as escadinhas da aeronave, numa mistura de sensações.
No avião
Pré-Decolagem: os simpáticos comissários verificam o número de seu assento e pedem que siga pelo corredor direito até sua poltrona. No caminho, você enfrenta os efeitos hierárquicos do capitalismo selvagem. Passa pela primeira classe, onde chiques e famosos degustam seus champagnes. Na classe executiva, vários senhores de terno. Um deles toma vinho branco, enquanto prepara um relatório em seu laptop. Mas como eles chegaram ali tão rápido? Você está apenas entrando no avião e eles já estão pedindo a segunda garrafa de Crystal. Parece uma dimensão paralela, cuja permanência é severamente controlada pela loira maquiada em frente à cortininha de veludo. Você atravessa e já pode ouvir os choros de crianças, as gritarias de grupos adolescentes, as brigas de pessoas que têm marcado o mesmo assento no bilhete, a descarga do banheirinho, uma cena dantesca. Conforme se aproxima da fila 167, um calafrio percorre seu corpo. Sua poltrona é a F. Nas poltronas G, e E respectivamente, estão sentados um senhor de camisa florida aberta, corrente de ouro grossa, óculos escuros, cabelos ensebados e um largo sorriso repleto de dentes amarelos e uma adolescente americana obesa, passando dos 175 quilos, com o braço apoiado até a metade da sua poltrona. Você soca sua mala de mão no compartimento acima, escala seus companheiros de viagem e encaixa-se em sua poltrona. Antes mesmo que consiga se acomodar, o senhor ao seu lado começa falar. Você oferece um halls preto extra forte, numa tentativa de aliviar o cheiro fétido que vem de sua cavidade bucal, mas ele não aceita.
Do outro lado, a americana ronca, com a cabeça levemente se inclinando em direção ao seu ombro. Essa viagem promete.
Vôo: apagam-se os avisos de apertar cintos. Você imediatamente inclina os 0,00065 graus da sua poltrona. Tenta empurrar um pouco mais, pensando que pode estar emperrada, mas logo percebe que aquela inclinação é realmente a máxima. Respira fundo, analisa o controle da televisão e do rádio que ficam no apoio do braço (logo abaixo dos cotovelos da americana) e aperta todos os botões. Nada acontece. 27 minutos depois de chamar a aeromoça ela chega sorridente. Sem prestar atenção em uma palavra do que você diz, tenta inutilmente fazer funcionar seu controle. Pede um tempo e em seguida retorna com a informação de que os controles de mídia da poltrona 167 F estão com defeito. Desculpa-se e oferece um jornal ou uma revista em alemão com tradução pra sueco como conforto. Você respira profundamente. Logo chegará o jantar: frango grelhado, brócolis no bafo, arroz papinha, pão seco, manteiga e pêssegos em calda. Tudo em tamanho reduzido, tudo mini, verdadeiros "bonsais" alimentícios.
Depois de comer, você começa a sentir sono. Acomoda-se e tenta relaxar. Está quase dormindo quando o amigo da poltrona ao lado retoma a conversa. Fala sobre seu sofrimento desde que descobriu-se diabético, da perda da amante em um terrível acidente de moto e da decepção ao descobrir a dupla homossexialidade de seu casal de filhos. Neste momento você decide que já basta de conversa, não quer ter pesadelos. Coloca os fones de ouvido (apesar de os controles de mídia de sua poltrona nem estarem funcionando), ignora o papo do amigo e finalmente dorme. Sonha estar em uma lata de sardinhas voadora. Até que sente a mão formigando por baixo do travesseirinho, os pés latejando de inchaço e acorda. Não era sonho, era a crua realidade. Você se alonga um pouco, preocupada com a possibilidade de seu corpo nunca mais voltar ao formato estendido original. Sua pele está inteira ressecada, perecendo uma escama. Você tenta alcançar sua bolsa no chão (onde traz um hidratante), mas não consegue porque os pés da americana estão em cima. Resolve apenas lavar o rosto. Escala o sofrido companheiro da direita (que finalmente parou de falar e agora baba no cobertorzinho) e dirige-se ao banheiro. Decide aproveitar para fazer xixi. Abaixa as calças, agacha-se, concentra-se e quando está quase conseguindo ouve a aeromoça pedir que todos retornem aos seus assentos e atem os cintos, pois haverá turbulência. Você volta para a poltrona e tenta relaxar. Nas 9 horas seguintes, as cenas se repetem, até que o piloto finalmente anuncia a aterrissagem.
Pós-Aterrissagem: depois de chacoalhar um pouco o avião finalmente pára por completo. Todos os passageiros brasileiros estão batendo palmas, ovacionando a aterrisagem como se fosse um show do Rolling Stones. Passado o frenesi, numa atitude desesperada, abrem seus cintos e se levantam, ignorando o fato de as portas da aeronave ainda estarem fechadas. Uns por cima dos outros, tentam pegar seus pertences nos compartimentos de mão, como se esses pudessem sair correndo, fugindo pelo avião. Quando o calor está quase insuportável, a fila começa a andar. 50 pessoas passam por você, mas ninguém lhe dá a vez. Finalmente você se enfia em frente a uma senhora de bengala, aliviada porque aquela tortura está prestes a acabar. Quando os comissários se despedem, agradecendo a preferência pela companhia aérea e esperando tê-la novamente a bordo em breve, você sente o sangue voltar a circular pelo seu corpo. Se não morrer de embolia nesse momento, agradeça. Tudo correu bem.
Novamente aeroporto
Imigração: você caminha pelos corredores do aeroporto até chegar à fila de imigração. Todos estão tensos, como se estivessem prestes a ir para o abate. A fila anda lentamente, sempre em formato S, pelas cordinhas vermelhas. Finalmente chega a sua vez. Você levanta suas blusas para tirar o passaporte que está na barrigueira. Os fiscais olham confusos. Quando coloca a mão no passaporte percebe que está ensopado. Assopra, tenta secá-lo um pouco e entrega-o na mão do fiscal. Ele passa uma eternidade olhando para você e para a foto, para você e para a foto, para você e para a foto. Você explica que emagreceu um pouco, pintou os cabelos, tirou aquela pinta que incomodava, mas ele parece não acreditar. Faz várias perguntas, desde sua conta bancária até a cor da calcinha da sua mãe. Finalmente toma suas impressões digitais e a deixa passar. Você foi aprovado. Não é uma terrorista, não é uma traficante, não é um imigrante sem providencias. É um turista livre, até que provem o contrário.
Esteira de bagagem: a esteira onde serão entregues as bagagens de seu vôo fica a quilômetros de distância. Depois de percorrê-los, você corre até onde estão os carrinhos e percebe que só pode pegar um se colocar uma moeda. Você lembrou de trazer todos os formatos de dinheiro, menos moeda. Malditos detalhes dos detalhes. Desiste do carrinho e volta para a esteira. Uma multidão se apunhala. Vem uma mala, outra, outra, outra, outra, outra, outra, outra. As pessoas vão se dispersando. Sua mala ainda não está ali e você se preocupa. Mas mantém o otimismo e continua esperando. Outra mala, outra, outra, aquela mesma com estampa do Mickey que já rodou mais de 32 vezes, outra, outra, outra, outra, outra, outra até que, finalmente, a sua! O alívio é tão grande que você nem se irrita quando ela tomba e cai para o lado de dentro da esteira. Simplesmente estica a mão, agarra as fitinhas do bonfim e a puxa de novo em sua direção. Ela vem com força, bate em sua canela e você tropeça. Mesmo sangrando, você está feliz. O importante é que todas as mandingas, orações e promessas a santos, deuses e orixás para que a mala chegasse haviam funcionado. Você se agarra a todos os seus pertences e se arrasta até o portão de desembarque.
Desembarque: no meio das pessoas você reconhece o senhor que fazia o relatório na classe executiva, aquele que estava tomando vinho branco. Ele está com uma aparência renovada, ainda melhor do que no começo da viagem. Quanto a você, está um traste. Seus olhos estão fundos, seu corpo inteiro dói, sua pele está rachada, seus olhos não param abertos, seu cérebro parece estar saindo de dentro da cabeça, sua perna está sangrando, seus pés não cabem mais nas botas, sua blusa está manchada com o caldo do minipêssego em calda do jantar e você está completamente surda. Tão surda que mal percebe o amigo sofrido da 167G desejar-lhe uma boa estadia, entre uma baforada e outra de um cigarro de palha. É nesse momento que você percebe que realmente chegou. Obrigada aos anjos, obrigada aos santos. Obrigada Santos Dumont que me fez chegar sã e salva ao meu país santo Brasil!
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